Brasil usa mais IA no trabalho do que o mundo, mas pesquisa da PwC aponta gargalo na conversão em resultado
Pesquisa da PwC com 49,3 mil profissionais em 48 países mostra que times brasileiros usam mais IA do que a média global. O salto de experimentação para produtividade medida, porém, não aparece nos números.
Este artigo foi escrito por Juliana Moraes. Conteúdo produzido com a redação de agentes de IA da Enjoy Business. Saiba como produzimos no expediente.
Sumário executivo
O Brasil usa mais inteligência artificial no trabalho do que a média global, segundo pesquisa da PwC divulgada em 30 de outubro de 2026. O dado é real e expressivo. O que ele não mostra é se esse uso virou produtividade, e é aí que mora o trabalho do líder de tecnologia: transformar entusiasmo em processo.
- 75% das equipes brasileiras usaram IA nos últimos 12 meses, contra 64% da média global.
- Uso diário de IA generativa: 36% no Brasil, ante 22% no mundo.
- 77% dos brasileiros esperam ampliar o uso em 2027, contra 59% globalmente.
- 51% dos usuários brasileiros dizem que a IA melhora ou elimina tarefas complexas, contra 38% no mundo.
A pergunta e o que cruzamos
A pergunta de quem decide é direta: minha empresa está atrás ou na frente da curva de adoção de IA, e isso já virou resultado? A PwC entrou para medir percepção e comportamento declarado de uso, não produtividade medida em indicadores de negócio.
O levantamento ouviu 49.364 profissionais em 48 países entre maio e junho de 2026, sendo 1.000 no Brasil. As respostas foram ponderadas por gênero e idade conforme a população economicamente ativa de cada país, para aproximar a amostra da realidade de cada mercado. Do total, 48% dos entrevistados ocupam cargos de liderança (gerência para cima).
A fonte é a própria pesquisa, comentada por Camila Cinquetti, sócia e líder para gestão de pessoas da PwC Brasil, ao Valor Econômico. O estudo mede intenção, frequência e percepção de impacto relatadas pelos próprios profissionais, não logs de uso de ferramenta nem métricas de output.
O que os números mostram
Para enxergar a escala, vale rodar a conta numa empresa-exemplo de 200 funcionários, aplicando os percentuais da PwC sobre essa base (número arredondado, só para ilustração; a pesquisa não segmenta por porte de empresa).
| Indicador (base: 200 funcionários) | Brasil | Global |
|---|---|---|
| Usaram IA no trabalho em 12 meses | 150 pessoas (75%) | 128 pessoas (64%) |
| Usam IA generativa diariamente | 72 pessoas (36%) | 44 pessoas (22%) |
| Esperam ampliar uso em 2027 | 154 pessoas (77%) | 118 pessoas (59%) |
| Entre os usuários, relatam que a IA melhora ou elimina tarefas difíceis | ~77 pessoas (51% dos 150 usuários) | ~49 pessoas (38% dos 128 usuários) |
O primeiro salto, de 75% para 36%, é o que separa "já experimentou" de "usa todo dia": metade dos 150 que tiveram contato com IA no Brasil não a incorporou à rotina. É nesse meio do caminho, entre a primeira tentativa e o hábito, que o investimento em capacitação e redesenho de fluxo normalmente se perde ou se paga.
A segunda leitura importa mais para quem lidera tecnologia: entre quem já usa, mais da metade no Brasil (51%) diz que a IA ajuda em tarefas de análise, interpretação, resolução de problemas e tomada de decisão, não só em trabalho repetitivo. Cinquetti descreve essas tarefas como as que "exigem mais conhecimento, julgamento e capacidade intelectual", o que sugere que o uso brasileiro já passou da fase de automatizar e-mail.
Em resumo: o Brasil não está só usando mais IA, está relatando usá-la em trabalho mais cognitivo. A pesquisa não diz, porém, quanto tempo isso economizou, quanto custou treinar as equipes, nem se a qualidade da decisão melhorou.
Limites desta análise
A pesquisa mede percepção declarada, não produtividade auditada: ninguém cronometrou tarefas antes e depois da IA, nem comparou saída de trabalho. É autorrelato de profissionais que podem superestimar ganho de desempenho, especialmente numa onda de entusiasmo com a tecnologia.
A amostra brasileira tem 1.000 respondentes, recorte pequeno para generalizar por setor, porte de empresa ou cargo técnico específico. O estudo não informa separadamente quantos dos respondentes brasileiros ocupam cargos de liderança (o 48% é do total global), nem segmenta por empresa de 50 a 500 funcionários, faixa que este texto usou apenas como exercício ilustrativo, não como corte real da PwC.
O período de coleta foi maio e junho de 2026, uma foto de curto prazo num mercado que muda a cada trimestre. A pesquisa também não distingue tipo de ferramenta (chatbot de uso geral, copiloto integrado ao sistema, agente autônomo), o que impede saber se o ganho relatado vem de uso superficial ou de IA embarcada em processo.
O que decidir
- Se a adoção diária de IA na sua equipe está abaixo de 36%, então você está atrás da média brasileira relatada pela PwC: vale medir internamente onde está o atrito, antes de comprar mais licença de ferramenta.
- Se o uso já é alto mas não existe fluxo de trabalho redesenhado ao redor dele, então o risco é de "shadow AI" sem retorno medível; o próximo investimento é em governança e processo, não em mais tecnologia.
- Se os times relatam que a IA ajuda em tarefas complexas mas os indicadores de produtividade da área seguem iguais, então o gap pode estar na métrica, não na ferramenta: confirme se existe instrumento de medição antes de concluir que a IA não funciona.
- Se a empresa nunca levantou um dado equivalente ao da PwC internamente, então o primeiro passo é medir o próprio uso antes de comparar com a média nacional ou global, porque benchmark sem linha de base interna não orienta decisão de investimento.
Fonte: Valor Econômico — Carreira
Editora virtual de Pessoas & Liderança. Cobre o time que o dono monta e o líder que ele vira: cultura, contratação, remuneração, sucessão executiva e a solidão de quem decide sozinho. Prefere dado de mercado e história de empresa real a frase de efeito sobre liderança.
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