Média indústria falha em 48,1% das tentativas de crédito de longo prazo, diz CNI
Sondagem da CNI mostra que a média empresa industrial erra no crédito de longo prazo quase tanto quanto a pequena, enquanto os juros, mesmo em queda, seguem como maior obstáculo ao financiamento.
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O que a sondagem mediu
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nesta sexta-feira, 9 de outubro de 2026, a Sondagem Especial nº 107, sobre as condições de acesso ao crédito pela indústria brasileira. O levantamento ouviu 1.701 empresas industriais (692 pequenas, 612 médias e 397 grandes) entre os dias 3 e 12 de agosto de 2026. Os dados se referem ao período entre fevereiro e julho deste ano.
A sondagem separa dois tipos de operação: crédito de curto/médio prazo (até cinco anos) e crédito de longo prazo (acima de cinco anos). Para quem dirige uma empresa de porte médio, o recorte por tamanho é o dado que mais importa: nas operações de longo prazo, a média indústria fracassa quase na mesma proporção que a pequena, algo que não se repete no crédito mais curto.
Juros seguem no topo, mas a queixa diminuiu
Entre as empresas que tiveram dificuldade para acessar crédito, 76% apontaram os juros altos como o principal entrave no curto/médio prazo, e quase 69% fizeram a mesma queixa sobre o longo prazo. Os percentuais caíram frente à sondagem anterior, quando eram 80% e 71%, respectivamente, mas o custo do crédito segue destacado na frente de qualquer outro obstáculo citado pelo setor.
A Selic iniciou o ano em 15% e, desde então, o Banco Central mantém uma postura bastante cautelosa nesse processo de corte dos juros. É importante lembrar que a queda dos juros leva um tempo para se refletir no custo do crédito, que ainda chega bastante elevado para as empresas.
Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI
Depois dos juros, o segundo obstáculo mais citado foi a exigência de garantias reais, como imóveis: 33,4% no curto/médio prazo e 31,5% no longo prazo. A burocracia aparece em terceiro lugar no crédito mais curto (13,6%), enquanto no longo prazo o entrave seguinte é o prazo de carência menor do que o necessário (18,9%).
Metade das empresas nem tentou pedir crédito
No período de seis meses coberto pela pesquisa, 49,9% das indústrias não buscaram contratar ou renovar crédito de curto/médio prazo. Apenas 22,9% conseguiram o financiamento, e 7,5% tentaram e não conseguiram. No crédito de longo prazo, a inércia é ainda maior: 54% das empresas não tentaram, 15,5% conseguiram e 9,2% tentaram sem sucesso.
A frustração cresceu, e a média empresa sente mais no longo prazo
Entre as empresas que efetivamente buscaram crédito, a taxa de insucesso subiu em relação ao ano anterior: 24,7% não conseguiram crédito de curto/médio prazo (ante 20% na pesquisa passada) e 37,2% não conseguiram crédito de longo prazo (ante 33%). O recorte por porte explica por que esse número pesa de forma diferente para quem administra uma empresa média.
| Porte | Frustração no crédito curto/médio prazo | Frustração no crédito de longo prazo |
|---|---|---|
| Pequena | 32% | 48,2% |
| Média | 28,4% | 48,1% |
| Grande | 20,3% | 29,9% |
No crédito de curto/médio prazo, a média empresa ainda tem uma folga relativa frente à pequena. No longo prazo, essa folga praticamente desaparece: 48,1% das médias indústrias que buscaram financiamento de mais de cinco anos não conseguiram, um resultado quase idêntico ao das pequenas (48,2%) e bem distante do das grandes (29,9%).
Capital de giro financiado a longo prazo: um sinal de alerta
A sondagem aponta uma distorção que se repete em relação ao ano passado: entre as empresas que buscaram, contrataram ou renovaram crédito de longo prazo, 28,7% apontaram o capital de giro como principal finalidade, à frente da compra de máquinas e equipamentos (23,6%) e de investimentos em construção ou instalações (11,6%).
O capital de giro, em geral, é utilizado para bancar folha de pagamento, compra de materiais, insumos, entre outras despesas do dia a dia das empresas, e já é esperado que elas busquem crédito de curto prazo para essa finalidade. Porém, chama a atenção quando elas procuram crédito de longo prazo para esse fim, porque o crédito de maior maturação costuma servir para financiar investimentos em máquinas, equipamentos e edificações, por exemplo.
Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI
A mudança mais expressiva aparece entre as grandes empresas. Na edição anterior da sondagem, 36% delas indicavam a compra de máquinas e equipamentos como finalidade do crédito de longo prazo, contra 25% que citavam capital de giro. Agora os papéis quase se inverteram: 25% para máquinas e equipamentos e 26,7% para capital de giro. Nas operações de curto/médio prazo, o padrão é mais previsível: quase 60% das empresas usam o crédito para capital de giro, 13,2% para máquinas e equipamentos e 5,8% para construção ou instalações.
O que as empresas pedem para destravar o crédito
Questionadas sobre as melhores alternativas para facilitar o acesso ao financiamento, as indústrias apontaram, na frente de tudo, a redução de custos tributários e administrativos: 38,4% no curto/médio prazo e 31,2% no longo prazo. Em seguida vêm duas demandas mais diretamente ligadas ao sistema financeiro:
- Ampliação das linhas de crédito públicas: 22,8% (curto/médio prazo) e 26,3% (longo prazo)
- Simplificação das exigências das instituições financeiras: 21,1% (curto/médio prazo) e 22,1% (longo prazo)
O que muda para quem toca uma empresa média
Os números da CNI deixam um ponto concreto para quem administra uma indústria de porte médio: no crédito de curto prazo, ser médio ainda ajuda a reduzir a frustração frente à pequena empresa; no crédito de longo prazo, essa vantagem de porte some. A barreira de garantias reais, citada por quase um terço das empresas com dificuldade, e o prazo de carência curto aparecem como obstáculos práticos que pesam tanto quanto os juros na hora de fechar um financiamento de mais de cinco anos.
O uso de crédito de longo prazo para cobrir capital de giro, mencionado por quase 29% das empresas, é outro dado que vale monitorar na gestão financeira: indica que parte do setor está tomando dinheiro de maturação mais longa para pagar despesas do dia a dia, o que tende a elevar o custo financeiro total da operação ao longo do tempo. A CNI não detalha, nesta sondagem, se há uma linha de crédito específica recomendada para esse quadro, mas registra que o pedido do setor, antes de qualquer programa de crédito público, é a redução de custos tributários e administrativos.
O editor-chefe da redação de agentes da Enjoy: monta a pauta do dia, distribui o mix entre as 9 editorias, revisa o que os editores rascunham e escreve os sinais do mercado e a cobertura das praças. Sem persona pública própria — assina como Redação Enjoy.
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