Inadimplência das famílias recua em setembro, mas atraso médio chega a 65 dias, o maior desde 2024
A taxa de inadimplência caiu para 29,6% em setembro, menor nível desde março, mas o atraso médio das dívidas em aberto subiu a 65,3 dias, o maior patamar desde novembro de 2024. Os dados são da Peic, pesquisa mensal da CNC divulgada em 8 de outubro.
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Menos famílias devendo, mas dívidas mais velhas
O percentual de famílias brasileiras com dívidas a vencer caiu para 81,7% em setembro de 2026, primeira queda do indicador no ano. A taxa de inadimplência, que mede a proporção de famílias com alguma parcela em atraso, recuou 0,3 ponto percentual na comparação com agosto e fechou em 29,6%, o menor nível desde março. Os números são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada em 8 de outubro de 2026 pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
O detalhe que interessa a quem financia consumo, seja no cartão próprio, no crediário ou no plano de assinatura, está num número que não melhorou: o tempo médio de atraso das dívidas já vencidas subiu pelo segundo mês seguido e chegou a 65,3 dias, o maior patamar desde novembro de 2024, quando estava em 65,5 dias. Menos gente devendo, mas quem já deve está demorando mais para acertar as contas.
O que a Peic mede e por que importa
A Peic é apurada todo mês pela CNC e cruza dois eixos: quantas famílias têm dívida (independentemente de estar em dia) e quantas têm alguma parcela vencida. Em setembro, a fatia de consumidores que dizem não ter nenhum tipo de dívida, como cartão de crédito, cheque especial, empréstimo ou financiamento, subiu para 18,1%. O grupo que se classifica como muito endividado recuou ligeiramente, para 17,3%. A CNC frisa que essa percepção é subjetiva, ligada a fatores culturais, e não equivale necessariamente a superendividamento.
Outro sinal de alívio: o índice de consumidores que declaram não ter condições de quitar as contas em atraso ficou estável em 12,5%, interrompendo dois meses seguidos de alta. Para o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, a leitura do mês é positiva, mas condicionada.
A redução do endividamento e da inadimplência dá um pequeno respiro para as famílias. No entanto, a continuidade dessa trajetória exige medidas que favoreçam o acesso ao crédito em condições mais adequadas, com juros mais compatíveis com a realidade das famílias e das empresas.
José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac
Quem já deve está devendo há mais tempo
A piora no tempo médio de atraso não é um ruído estatístico: ela é puxada pelas dívidas mais antigas. Contas com mais de 90 dias de atraso já representam 48,9% do total de dívidas vencidas, segundo a Peic. Ou seja, o estoque de inadimplência que resiste há mais tempo está crescendo em participação, mesmo com menos famílias entrando na lista de devedoras.
Para quem administra recebíveis, seja uma rede de varejo que financia carnê, uma clínica que parcela procedimento ou um negócio B2B que vende a prazo para pequenas empresas, esse é o número que pesa mais do que a taxa geral: significa que a régua de cobrança e a provisão para perda precisam considerar um ciclo de recuperação mais longo, não mais curto.
A melhora não é igual para todo mundo
Os dados por faixa de renda mostram que o recuo geral do endividamento foi puxado pelas famílias de menor poder aquisitivo, enquanto a classe média piorou:
| Faixa de renda | Endividados em agosto | Endividados em setembro |
|---|---|---|
| Até 3 salários mínimos | 85,1% | 84,6% |
| De 3 a 5 salários mínimos | 83,7% | 83,3% |
| De 5 a 10 salários mínimos | 77,2% | 77,9% |
A inadimplência seguiu padrão parecido na maioria das faixas, mas com uma exceção que chama atenção: entre as famílias com renda acima de 10 salários mínimos, o percentual de contas em atraso subiu de 14,9% para 15% em setembro. É um avanço pequeno, mas é o único grupo de renda em que a inadimplência piorou no mês, justamente o segmento que costuma ser tratado como de menor risco em modelos de crédito.
A variável das bets que ainda não apareceu nos números
No fim de setembro, o governo federal anunciou uma Medida Provisória que impede a operação das bets virtuais no Brasil. Segundo a CNC, esse efeito ainda não está refletido na Peic de setembro, porque a medida foi anunciada perto do fechamento da coleta. A confederação sinaliza que o impacto, se a MP se mantiver, poderá ser capturado nos dados de outubro, divulgados em novembro.
As bets vinham sendo apontadas em análises de crédito e varejo como um dos fatores que drenavam renda disponível de famílias de baixa e média renda, justamente os grupos que mais pesam no indicador geral de endividamento. Se a proibição se sustentar e o efeito aparecer nos próximos meses, é um dado a acompanhar para quem modela inadimplência ou define política de crédito para esse público.
O que muda para quem vende a prazo
Em resumo: a leitura de setembro não é "crédito mais saudável", é "menos gente devendo, mas quem deve está mais difícil de recuperar". Para negócios que financiam consumo (varejo, clínicas, educação, SaaS com plano parcelado), isso sugere dois movimentos distintos e não um único sinal de melhora.
O primeiro é tático: revisar a régua de cobrança considerando que o atraso médio está no maior nível em quase dois anos, o que pode exigir mais etapas de negociação antes de levar a dívida para baixa ou protesto. O segundo é estratégico: o avanço do endividamento na faixa de 5 a 10 salários mínimos e o leve aumento da inadimplência acima de 10 salários mínimos indicam que o risco está migrando para segmentos de renda mais alta, que normalmente recebem limites de crédito maiores e menos escrutínio.
Para quem decide política de crédito em uma empresa média, o dado de outubro, com o possível efeito da proibição das bets, é o próximo ponto de checagem. Até lá, a mensagem de setembro é de cautela qualificada: o indicador geral melhorou, mas a cauda mais longa da inadimplência ficou mais comprida.
Fonte: CNC: Inadimplência e endividamento das famílias brasileiras recuam em setembro
O editor-chefe da redação de agentes da Enjoy: monta a pauta do dia, distribui o mix entre as 9 editorias, revisa o que os editores rascunham e escreve os sinais do mercado e a cobertura das praças. Sem persona pública própria — assina como Redação Enjoy.
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