Inadimplência das empresas bate recorde de 9,3 milhões de CNPJs em agosto
Levantamento da Serasa Experian mostra 9,3 milhões de CNPJs negativados em agosto de 2026, alta de 14,3% sobre o mesmo mês de 2025. Corte de juros ainda não aliviou o caixa das empresas, especialmente das menores.
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O recorde que não para de crescer
O Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian, divulgado em 20 de outubro de 2026 com dados de agosto, mostra 9,3 milhões de CNPJs negativados no país. É alta de 14,3% sobre agosto de 2025 e um novo recorde da série histórica. No total, essas empresas acumulavam 68,2 milhões de dívidas em atraso, somando R$ 244,4 bilhões.
Na média, cada CNPJ inadimplente carregava 7,4 contas negativadas, com dívida média de R$ 26.355,13 e ticket médio de R$ 3.583,96 por conta. O número reforça um padrão que já aparece há alguns meses nos indicadores da datatech: a inadimplência empresarial não é um evento isolado, é um acúmulo de pendências que se arrasta.
Juros caíram, caixa não aliviou
Para quem espera que o ciclo de corte da Selic traduza-se em fôlego imediato no caixa das empresas, o indicador é um balde de água fria. A variação anual da inadimplência desacelerou, mas segue em dois dígitos, e o estoque de empresas negativadas segue batendo recorde mês após mês.
A inadimplência empresarial cresce em ritmo menor, mas ainda muito elevado: a variação anual recuou de 28,7% para 14,3%, permanecendo em dois dígitos. Ao mesmo tempo, o número de empresas inadimplentes alcançou o recorde de 9,3 milhões, evidenciando que a redução dos juros ainda não alterou as condições financeiras enfrentadas pelas empresas. O crédito continua caro, o caixa permanece pressionado e o ambiente segue especialmente restritivo para os negócios de menor porte.
(autor) Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian
Crédito como remédio para o caixa, não para a dívida
Um dado chama atenção: mesmo com a Selic ainda elevada, a demanda das empresas por crédito cresceu 11,2% no acumulado em 12 meses. As concessões de capital de giro de curto prazo, especificamente, avançaram 113,9% no período. Para a economista-chefe da Serasa Experian, isso não é sinal de recuperação, é sinal de sobrevivência.
Mesmo com a Selic ainda em patamar elevado, a demanda das empresas por crédito cresceu 11,2% no acumulado em 12 meses. Ao mesmo tempo, as concessões de capital de giro de curto prazo avançaram 113,9%, indicando que o crédito tem sido utilizado como instrumento de sustentação da liquidez empresarial. Em um contexto de inadimplência recorde, esse movimento parece estar mais associado à necessidade de financiar o caixa e manter a operação do que à redução do endividamento ou à expansão dos negócios.
(autor) Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian
Para quem fornece crédito B2B, prazo ou linha de capital de giro, a leitura prática é direta: o cliente que pede mais crédito agora pode estar tapando buraco de caixa, não investindo. Vale olhar o histórico de pagamento antes de esticar prazo.
Onde a dívida mora: serviços na frente
Do total de empresas negativadas em agosto, o setor de Serviços concentrou mais da metade dos CNPJs inadimplentes, seguido de perto por Comércio.
| Setor | Participação nos CNPJs inadimplentes |
|---|---|
| Serviços | 56,0% |
| Comércio | 32,0% |
| Indústria | 8,0% |
| Primário | 0,9% |
| Outros | 3,1% |
O peso de Serviços não é surpresa: é o setor com maior densidade de pequenos negócios, margens mais apertadas e menor colchão de caixa para absorver choque de demanda ou alta de custo.
Credores pulverizados, cobrança mais complexa
Ao olhar a origem das 68,2 milhões de dívidas negativadas, e não apenas quantas empresas devem, o retrato muda. Serviços aparece de novo como maior origem (31,7%), seguido por Bancos/Cartões (19,7%), Cooperativas (8,5%), Utilities (6,7%) e Telefonia (6,2%). Juntando Bancos/Cartões e Financeiras, as instituições financeiras concentram 24,4% das pendências. Os outros 75,6% estão fora do sistema financeiro tradicional, espalhados entre fornecedores, prestadores de serviço, concessionárias e operadoras.
Mais de três quartos dos registros de dívidas negativadas estão relacionados a setores não financeiros. O dado não representa a participação desses setores no valor total das dívidas, mas mostra que as pendências das empresas estão distribuídas entre diferentes tipos de credores. Em um ambiente de menor dinamismo econômico, administrar múltiplos compromissos e preservar o fluxo de caixa torna-se ainda mais desafiador, especialmente para empresas que já acumulam diferentes pendências.
(autor) Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian
Na prática, isso significa que a empresa inadimplente raramente deve só ao banco. Ela deve ao fornecedor, à operadora de telefonia, à concessionária de energia e ao banco ao mesmo tempo, o que torna a renegociação mais fragmentada e mais difícil de coordenar.
Mapa regional: São Paulo isolado na frente
O Sudeste concentra o maior volume de CNPJs inadimplentes do país, com destaque claro para São Paulo.
- São Paulo: 3.173.156 CNPJs negativados
- Minas Gerais: 927.374
- Rio de Janeiro: 879.915
- Paraná: 613.012
- Rio Grande do Sul: 539.319
A concentração em São Paulo reflete, em boa parte, o peso do estado na base total de empresas ativas do país, mas também sinaliza onde a pressão de cobrança e renegociação tende a ser mais intensa nos próximos meses.
Pequenas empresas carregam o maior peso
Micro e pequenas empresas respondem por 8,8 milhões dos 9,3 milhões de CNPJs inadimplentes, ou seja, a esmagadora maioria. Esse grupo concentra 61,4 milhões de dívidas, somando R$ 211,0 bilhões. Em média, cada micro ou pequena empresa negativada acumula 7,0 contas em atraso, com dívida média de R$ 23.902,98 e ticket médio de R$ 3.435,34.
Para as micro e pequenas empresas, o desafio hoje vai além do custo do crédito. São negócios que possuem menor capacidade de absorver choques e precisam administrar simultaneamente custos operacionais, capital de giro e um ambiente econômico de menor crescimento. Quando uma empresa desse porte já carrega, em média, sete dívidas inadimplidas, recuperar o equilíbrio financeiro exige uma reorganização mais ampla do caixa. Por isso, a gestão financeira e o planejamento ganham ainda mais importância neste momento.
(autor) Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian
O que isso muda para quem decide
Se sua empresa concede prazo, vende para outras empresas ou negocia linha de crédito B2B, o indicador tem três leituras práticas. Primeira: o aumento da demanda por capital de giro de curto prazo não é sinal de expansão do cliente, é sinal de que ele está esticando o caixa.
Segunda: a dívida concentrada em Serviços e nas micro e pequenas empresas sugere maior cautela em contratos com esse perfil, sobretudo em regiões de alta concentração como São Paulo. Terceira: a pulverização de credores (apenas 24,4% das pendências são com bancos) significa que o CNPJ negativado pode já estar negociando com vários fornecedores ao mesmo tempo, não só com o sistema financeiro.
O indicador não aponta quando a curva deve inverter. A Serasa Experian mantém a série histórica aberta para quem quiser acompanhar mês a mês se o recorde de agosto foi pico ou apenas mais um degrau.
Fonte: Serasa Experian: Novo recorde, inadimplência das empresas chegou a 9,3 milhões em agosto
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